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Ricardo YI's Journal :: InspirationsRecent Entries | ||
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13th May 200611th May 2006
: Enquanto isso, no mesmo lado da cidade
Quem cresceu em um ambiente bilíngüe deve estar acostumado com os universos paralelos que as gramáticas tão diferentes organizam. Não deve se espantar com as falas intercaladas, mesclando palavras de um e de outro idioma. Esse trânsito em via dupla pode parecer meio estranho a quem ouve de fora. Mas soa como uma espécie de acordo entre dois mundos em conflito convergente. É como andar pelas áreas límbicas de uma cidade, regiões de transição entre diferentes formas de uso ou estilos de vida. Entre um bairro familiar e uma zona degradada, por exemplo. No estreito limite de uma calçada podem conviver universos tão díspares como duas línguas, duas culturas longitudinalmente opostas. Dividir-se para melhor se adaptar às vezes não surge como necessidade ou opção, mas contingência. Uma diplomacia de forças e sem nexo. De alguma forma também na cadência de frases que se perdem por ruas que não se sabe que tipo que fado que tocam. São dias, são noites bilíngües. De fato, no fio da lâmina em que correm. Current Mood:
Current Music: 'Blade Runner End Title' (Vangelis)
8th May 2006
: Queridos amigos,
Algumas das melhores cartas que escrevi foram para um amigo que morava em uma cidade perto daqui, na região metropolitana de São Paulo. Melhores porque condensavam dedicação e esforço reflexivo em um infatigável trabalho de cultivo da amizade. Mesmo depois, com a chegada e domínio do e-mail, ainda sentia ânimo para produzir textos elaborados. Por pouco tempo. Quando leio um livro de cartas de algum autor famoso, me lembro das minhas próprias cartas (e do fim dessa era). Talvez os escritores mantenham o hábito por ofício. Ou eles sejam imunes ao desgaste do tempo e das consciências. Mas o que terá acontecido com os outros? O que sobrevive nas páginas manuscritas parece ainda estar dentro do prazo de validade. Só mudam algumas circunstâncias, panos de fundo ou personagens. Mas o essencial permanece. Talvez seja isso: a memória continua cheia, saturada, e não há mais necessidade de reposições. É como se houvesse uma inércia diferencial, em que os corpos envelhecessem e as mentes não. Enquanto a vida anda, a cabeça parece parar. Ou não. As distâncias podem ter se ampliado e a comunicação perdido o rumo. Assim feito foto e negativo, cada um para seu lado e, muitas vezes, sem possibilidade de reencontro. A não ser entre os mais organizados, quando é que se vai achar o negativo certo daquela foto que se quer reproduzir? Current Mood:
Current Music: 'Vamos fazer um filme' (R.Russo)
1st May 2006
: Para além do Pacífico
Uma das tarefas mais difíceis ao estudar canto é pesquisar repertório. Outro, ainda mais extenuante, mas igualmente prazeroso, é encontrar uma forma diferente de interpretar aquela canção que já ficou marcada como um clássico. Quando menos se espera o que vem à mente só faz lembrar o original, o definitivo. É como se a música tivesse nascido assim, brotado inteira no formato em que a ouvimos. E sempre foi assim com ‘Over the rainbow’, para sempre na voz de Judy Garland. Não adiantaria mudar o andamento, a dinâmica, infundir uma atmosfera de esperança enevoada, grunhir em desalento. Tudo levaria de volta a ‘O mágico de Oz’ e seu universo technicolor. Mas então, no programa ‘Diário da manhã’, de Salomão Schwartzman, na Cultura FM, ouço um ‘Over the rainbow’ estranhamente novo. Vem de uma voz que não conhecia. Nada mais sabia sobre ele. Israel Kamakawiwo’ole. Pelo nome poderia imaginar um artista africano ou de algum país mergulhado no Oceano Índico. Seu canto traz suavidade em uma perspectiva de infinito. Por isso parece amistoso mas distante. Tranqüilo, indecididamente trêmulo e sepulto. Como vim a descobrir, passado. Estranho conhecer alguém que já se foi. Que deve ter sofrido tanto com seus problemas físicos e, tão além deles, soprado cores através da voz. Se um dia conhecer o Hawaii, talvez compreenda melhor a beleza que Israel Kamakawiwo’ole soube reinterpretar. Current Mood:
Current Music: 'Over the rainbow', com Judy Garland e Israel Kamakawiwo'ole
24th April 2006
: Quase
Não conseguir ingressos para ver ‘Esperando Godot’ parece fazer mais sentido que simplesmente assistir à peça. Carrega um toque beckettiano de ausência na espera. E assim aguardo uma nova oportunidade, lembrando do texto e dos personagens patéticos à beira de lugar nenhum. Que não haja conformismo na imobilidade, mas impaciência no torpor. E palavras para escapar do silêncio-solidão. Vladimir e Estragon falam para preencher o vazio. Inventam jogos que abreviem o tempo. Esse mesmo tempo condensado, espesso, rodeando qualquer prenúncio. Virá um dia? Como virá? Não conseguir algo não quer dizer necessariamente uma derrota. Mesmo porque não se compete contra outros. Ou não se falha quando não se trata de um desempenho de funções. É simplesmente não chegar. A algum ponto necessário, na hora devida. Talvez tenha a ver com velocidade ou sincronia. Mas pode também revelar um desejo (como um negativo) de deixar à deriva. Talvez esteja esperando Godot fora do teatro. Sem saber o que dizer, perguntar. Muitas vezes a paisagem se assemelha àquela desolação. Algumas folhas podem surgir depois. E alguém pode aparecer para avisar que não é mais hoje. Talvez amanhã. Current Mood:
Current Music: 'Acontece' (Cartola)
19th April 2006
: Margens moventes
Rio das Pedras, Penedo. O barulho da água sobre as pedras faz sentir o rio mesmo sem se ver, por entre a densa vegetação. Um som de fonte, toque de minerais, borbulhas de eterno movimento e escoar ligeiro. E então o vejo, com sua força de arrasto, na aparente tranqüilidade de um leito estreito e raso, mas traiçoeiro na derrapagem quase certa na lisura das rochas que parecem plácidas, ao mesmo tempo a ponto de saírem rolando. De onde vem, não sei, parece não ter início, nem um destino aportado. Em golfadas, aquaplanos, ele existe assim: enquanto. O rio e as pedras continuam em seu constante choque convivente, de polir e gastar. Ao contrário das pedras rolantes que não criam limo, paradas, elas deixam o trabalho de sua pureza ao esforço da água cristalina. Que cria seu caminho ao transcorrer. Aqui, sobre essas pedras, ao contemplar as águas correntes, me lembro do que dizia Alan Watts a respeito de um dos sentidos do Tao no original mandarim – o curso da água pode ser uma tradução dessa forma de viver, integrando-se com os ritmos da natureza, em busca da trilha de menor resistência. É como seguir o rio, confiando em sua sabedoria. Ainda que quase escorregue, me desequilibre, na vertigem sem alturas. Cada hora os filetes cobrem mais ou menos das pedras fixas ou correntes. Forma sempre incerta, na luz de sedimentos. Doces, ásperos, ambivalentes. Passam na frente da casa em que Eci e Sandro criam, com artesania esmerada, pastas e chutneys de frutas e especiarias. Na delicadeza e no mistério revelam uma compreensão rara da natureza. Seus sabores guardam compostos que adormeceram e renasceram juntos. Current Mood:
Current Music: 'Like a rolling stone' (Bob Dylan)
13th April 2006
: Vésperas
Um dia antes é preciso diminuir o ritmo da respiração, tranqüilizar o espírito. Parece que eles vão se precipitar na espera já quase festa. É preciso pensar em cada detalhe: escolher peças de roupa, juntar suprimentos, reabastecer baterias. Quase não haverá espaço para mais nada. Um dia antes é tempo de menos. Cada vez reduzido a menos ainda. Sempre a ponto de provocar esquecimentos, mesmo com listas de checagem e confiança na memória. É comprimir boa parte das experiências em bagagens suportáveis ao esforço do corpo. Ou rever, passo a passo, em velocidade aumentada, aquilo que se decantou e agora volta a pedir atenção. Um dia antes é diferente de qualquer outro dia. Tem uma densidade própria, uma cadência ritual e rastros que vão evanescer quando a manhã chegar. Não é como a vida toda. Passa quando o seu sentido já se perdeu. Current Mood:
Current Music: 'One day more' (A.Boublil-C-M.Schönberg)
3rd April 2006
: A música que vem da escuridão
Foi como voltar nove anos. Dentro do metrô me sentia de novo a caminho da estação de Piccadily Circus, com o ingresso comprado há tanto tempo. Chegaria bem cedo, com o teatro ainda vazio, para melhor fixar cada detalhe do lugar. A trilha musical já era bem conhecida. Sabia até alguns versos de cor. A música da noite tantas vezes exercera seu fascínio nos longos caminhos de um só. Agora em português, teria sobrevida ou se enfraqueceria? O sucesso da peça musical faz torcer narizes críticos e atrair olhares curiosos. Muita gente vem para comparar com as produções originais. Outros não entendem pedaços da história ou reclamam de acentos operísticos da interpretação. Mas os efeitos especiais continuam a surpreender, com fogos e passeios mal assombrados da voz de fantasma. Pode parecer estranho se diluir em emoções baratas (a preço tão caro). Pode parecer concessão. Apenas entretenimento descompromissado em noite de domingo, talvez. Alguma coisa de compartilhável. Qualquer que seja, não há por que explicar um componente precioso de biografia em andamento, pedaço de viagens para perto de um centro, descoberta de um mundo de que jamais faria parte. Naquela noite longínqua nas ruas de Londres ficou para sempre acesa a ferida de um só. Current Mood:
Current Music: 'The point of no return' (A.L.Webber-C.Hart)
24th March 2006
: Parassíntese
Algum tempo atrás escrevi um roteiro de visita à cidade de São Paulo no formato de ’10 mais’ (‘Top ten São Paulo’). Lá deixei, como melhor conjunto de cenários a região da Luz, central, com o Jardim, a estação de trem, a Pinacoteca e o Museu de Arte Sacra. Ainda não havia sido criado o Museu da Língua Portuguesa nos andares superiores do prédio da estação. Agora inaugurado, ele chega para adensar ainda mais aquela região com um sentido de longa perspectiva – lugar para experimentar e pensar. E em uma base tão pouco material porque o idioma, enfim, se constrói sobre uma memória compartilhada. Como se fosse uma internet sem as máquinas. Essa experiência de convívio nos é proposta pelos curadores do museu. Quando imergimos no planetário da língua, em meio às projeções criativas a ilustrar passagens significativas da literatura brasileira e portuguesa, acontece a magia. Palavras, frases, textos são muito mais que traduções de estados interiores. Eles criam universos. [Assim, o desenho de uma galáxia parece ser um logo perfeito] Universos de imagens e sonoridades, uma rede envolvente dentro da qual sentimos, refletimos, agimos. Que, também por isso, nos limita, confrange, retorce. Parece impossível viver a experiência desse museu sem falar. É mais metalingüístico que qualquer outra atividade, talvez. Falar muito, com mesmas ou novas palavras. Desesperadamente. [Porque, ao contrário do que diz Rosa, na exposição do primeiro andar (‘o sertão é uma espera enorme’), não há mais por que esperar] Current Mood:
Current Music: 'Monte Castelo' (R.Russo-Camões-I Coríntios13)
19th March 2006
: Folksonomy
Quando alguém escolhe um restaurante pela quantidade de pessoas na fila ou um prato depois de perguntar para o garçom aquele que mais sai, isto é folksonomy. Ou quando se recorre aos resultados do mecanismo de busca que tornou bilionários seus idealizadores. Isto também é folksonomy. Nada de muito novo essa forma de orientar as ações com base na opinião das outras pessoas. É disso que trata esse termo estranho: taxonomia (= classificação) realizada pelos outros semelhantes (folks). Ela só ganha maior notoriedade agora porque parece contradizer o movimento à crescente indiferença entre os humanos. Pois é. A folksonomy está aí para mostrar que as pessoas continuam confiando mais nos seus pares. Não é à toa que as listas de best sellers ainda funcionam tanto. Assim como os boatos, essas invenções sem compromisso com o real. O senso comum parece ser o fio invisível que mantém unido quem não se conhece a todo o restante da sua espécie. Confiar no que os outros acham, sentem, gostam, sem ao menos conhecê-los. Não lhe parece estranho? Não lhe parece um ato de desespero? Ou então comodismo, porque transfere o trabalho da descoberta, desloca a carga da experiência e do risco. Será, ao contrário, humildade, ao reconhecer sua condição essencial de apenas mais um na multidão? Se você parar para refletir sobre isso, faria o favor e o prazer de dividir sua opinião comigo? Current Mood:
Current Music: 'People' (J. Styne - B. Merrill)
17th March 2006
: &?
Agora é com essa brisa quase fria de outono próximo no começo da noite, esquina de avenidas, que parece tudo ressurgir. A vida é mesmo feita de círculos que estão sempre a ponto de se fechar e, então, ensaiam um novo traçado. Andar sobre essas mesmas calçadas traz de volta um sabor de algo quase esquecido. Não tem mais aquela intensidade, mas é como se acordasse para dizer que ainda faz companhia. Current Mood:
2nd March 2006
: Cada vez que vem de novo
Para quem consegue sobreviver nessa vida de incertezas talvez não seja tão terrível se deparar com as repetições. Elas marcam uma espécie de circularidade, um eterno retorno que conforta, dá uma sensação de familiaridade nesse mundo de sobressaltos. O que se pode reconhecer, afinal, não pode exercer mais seu pleno domínio. Quando muito chega como um estranho domesticado, um inimigo íntimo, como dizia aquele dramaturgo. Mas também o preço a pagar parece ser diretamente proporcional ao grau de redundância: quanto mais o mesmo se expressa, mais aborrecido é continuar nessa tocada. De tal forma que a escolha fica sendo entre o susto e o enfado. Se fosse filme, entre o suspense e a comédia de costumes. Como a espécie humana (ou uma facção influente dela) parece hábil na negociação, uma solução intermediária foi barganhada de forma obscura, talvez corrupta. Há uma suspensão da crítica e das ilusões e tudo o que se poderia identificar como próximo aparece como desconhecido, longínquo. Um auto-engano consentido, mezzo consciente mezzo sonâmbulo. Se fosse filme seria de aventura, cheio de ação e reviravoltas, ou uma comédia romântica, com desencontros e encontros. Em ambos haveria um acordo tácito, um compromisso de final feliz. Porque já se sabe tudo de antemão. Só não se conta para não perder o encanto. As repetições são um caldo de covardia. Imobilidade no certo contra movimento no duvidoso. Descanso em carrossel. Alimentam para melhor entorpecer; se exibem com arrogância para então retrair sem a menor compostura. Current Mood:
Current Music: 'Porto' (Dori Caymmi)
17th February 2006
: De lavada
Só nos filmes e comerciais americanos que a gente encontra pessoas interessantes nas lavanderias. É quase sempre assim: depois de um dia enfadonho o mocinho leva uma sacola cheia de roupa suja para lavar; mocinha entediada faz o mesmo et voilà!: olhares, conversas, continuações. Na vida real, meu caro, não há ninguém além dos atendentes, é preciso decorar o número de minutos para colocar o sabão líquido, em seguida o amaciante e olhar atento para o relógio. Quando muito, haverá revistas de fofocas (atrasadas) ou, quem sabe, um aquário. Por que será que eles escolhem tanto as lavanderias? Afinal, uma hora e vinte minutos não é tanto tempo assim para ficar largado, sem fazer nada. Pode-se levar um livro, ouvir música autisticamente ou rabiscar idéias para uma nova crônica. Talvez eles achem que seja uma bela metáfora: :: lugar para trazer a público pedaços maculados da privacidade :: a roda do destino se movimenta como as máquinas :: enquanto os desconhecidos, parados, ganham a chance de dar um novo impulso às suas vidas Melhor que fila de banco, porque de lá saímos com o mesmo que entramos (pelo menos em termos materiais, descontado o preço de uso das máquinas). Mas com uma diferença: nos filmes, alguma peça de roupa vai ser trocada, da mesma forma que números de telefone. Mesmo que não se volte mais para lá, nada mais combinará como antes. Eles parecem querer dizer que a lavanderia é transformadora. O melhor ponto de encontro, um portal de passagem. Ainda que o seco retorne seco. E tudo funcione apenas enquanto as máquinas também girarem. Que tal se chover quando sair da lavanderia? Current Mood:
Current Music: 'I heard it through the grapevine' (Whitfield-Strong)
14th February 2006
: Fotografias e radiografias
O protagonista de ‘O Fotógrafo’, de Cristóvão Tezza, imagina uma tal de fotomancia, um sistema que revela a personalidade ao verificar o grau de semelhança ou afastamento entre a fotografia e a pessoa fotografada. Quantos de nós não se espanta ao se ver retratado? É como ouvir a própria voz gravada. Parece vir de outra figura, algum estranho que desconhecemos totalmente. Assim também é com radiografias, esses retratos interiores, ao mesmo tempo estrutura e futuro – apenas esqueletos que restam(?) Lá está o ombro, que imaginávamos forte para suportar todos os baques, como um istmo pálido, um sobressalto em meio escurecido. Não há como se reconhecer em tão deslocado espelho. Além da ausência de qualquer sinal de emoção, a placa radiografada reduz as diferenças a formatos e tons: um desenho irregular, uma transparência, quebras, intermitências. Mas ela é, também, um pouco como aquelas frases que dizemos apesar de nós. E que estranhamos, talvez até renegamos, arrependidos. São pertences de que fazemos questão de desapegar, porque nos impede de esquecer. Current Mood:
Current Music: '37º2 le matin' (Gabriel Yared)
28th January 2006
: ... that never goes out
É como se ouvisse a música já traduzida. Quantos não dizem a mesma coisa: querem sair, para algum lugar com música, luzes, gente bonita... E a canção combina tanto com esta cidade, cheia de promessas em cada noite e casa, saída e volta. Foram vinte anos, mas é como se ela fosse para sempre assim mesmo: uma principiante. Ouvindo de novo agora parece que a voz de Morrissey está ainda mais próxima, como um amigo que compreende nossa busca. ‘take me out tonight...’ Não era essa a música que Caio F. pensou para ‘Pela noite’, mas ela combina tão bem, como também combina com o filme ‘Anjos da Noite’, de Wilson de Barros. São marcas fortes do meio da década de 1980, de aventuras urbanas erráticas, de uma solitude lunar, de um rock pós-punk legião. E de novo agora, pós-utópica, sem grandes referências ideológicas, envelhecendo. Mais do que eterno retorno, elas permanecem na gente como parte do DNA – um gene de quem era jovem quando tudo isso surgiu. E que talvez nunca encontre lar mesmo no conforto de suas casas. ‘take me anywhere, I don’t care just driving in your car I never never want to go home because I haven’t got one I haven’t got one’ Se você ouvir de novo a canção talvez se arrepie quando perceber que tanto tempo passou e no entanto Current Mood:
Current Music: 'There is a light that never goes out' (J.Marr-S.Morrissey)
18th January 2006
: Conforto para toda dor
São meus ombros que talvez já tenham suportado tanto. Assim, demasiado firmes, tensionados entre as pontas de dois mundos que se maltratam e querem se fundir. Como anteparos pouco preparados para dar conta dos choques repetidos, diários, das preocupações em manter a vida rodando. Encosto impossível para o pescoço, ponte para braços agitados. Assim, pouco firmes diante dos baques de máquinas que falham, conversas que não se completam, esperas que se esvaziam. Agora mais que sensíveis, sofridos. São de amigos de faz tempo, mesmo sem atualizações, que laminam as cordas dos nervos, na procissão dos sintomas. E quase se anestesiam pela agudeza das estocadas. Que chacinam a sua derrocada resignação em seguir. Mas ainda procuram amparo em alguma coisa, qualquer coisa. São de algum lugar incerto, extensão indefinida, variada pungência, inexplicadas, sencientes. Um desconforto em estar no mundo. Exaustão de percorrer quase todas as trilhas, becos com saída ainda piores que o simples abismo. São de cada um, conhecidos e desconhecidos. Matéria orgânica, inanimada. Parte inseparável de quem observa e sente. Estão aqui. ‘Gate gate paragate parasamgate bodhi svaha’ [‘Ido, ido, ido completamente, todos idos à outra margem, iluminação, aleluia’] Current Mood:
Current Music: 'Réquiem' (G. Fauré)
13th January 2006
: 2046 = 2046
Para quem já é aficionado pelo cinema de Wong Kar-Wai (‘Amores Expressos’, ‘Anjos Caídos’, ‘Felizes Juntos’, ‘Amor à Flor da Pele’), ‘2046’ é mais um belo encontro com seus temas recorrentes: amor, não correspondência, fugacidade, inconclusão. Agora o tempo cresce em premência. Não pesa apenas o seu transcorrer pontual ou circular, mas também as idas vindas de um futuro fictício para um passado poroso. O espaço não é obstáculo para os personagens. Todo o extremo leste da Ásia parece fluido, sem fronteiras fortes. Eles vagam por Hong Kong, Xangai, Cingapura, Phnom Pehn, Macau, Tokio como se fossem apenas bairros mais distantes de uma mesma cidade multipolar. Nem mesmo o idioma é barreira. Podemos distinguir a cadência ascendente do mandarim, em um paralelo (talvez forçado) com o português mineiro, mais incisivo e ríspido, à espanhola. Algumas vezes ouvimos o contraste com a língua japonesa, mais plurissilábica e suave, mas igualmente oxitonizante. De qualquer forma, a dissonância nas falas não fica mais marcada que o desencontro dos sentimentos. Mas o tempo. Como linhas pessoais que se cruzam em ritmos diferentes, intensidades singulares, ele parece conspirar contra a felicidade dos pares. Questão de horas, ou meses; anos, ou vidas. Talvez nem todas as unidades conseguissem acertar a sintonia das diversas esperas. Nem mesmo na imaginação, que sempre escapa. A impossibilidade do retorno é a outra face da inércia da afetividade. Current Mood:
Current Music: 'Solitude' (Ellington-De Lange-Mills)
8th January 2006
: Nos sapatos (ou tênis) dos outros
Ajudar a procurar apartamento para os outros permite refazer os caminhos da cidade, renovar o olhar para os detalhes, os ângulos das ruas, inclinações, proximidades. Carrega o andar de intencionalidade, dirige a atenção para os moradores locais, exagera possibilidades. Ajudar a pesquisar móveis para os outros reabre a percepção para o acabamento das peças, flexibilidade de composição, encaixe nos orçamentos. Carrega o andar de volumes, cores, texturas. Exagera suportabilidades. Entre as buscas e os acordos muito tempo se passa e boa parte da motivação se perde. Há um residual de cinzas: do que se idealizou e foi tragado pelas forças do mercado; do que um dia se desejou e depois se desviou em outras direções; do que se compartilhou e agora se absorve solitariamente. As expectativas pelos outros são de uma natureza estranha. Não se sabe ao certo até onde as procuras chegarão, que opções serão favorecidas, quais barganhas produzirão resultado. Pode-se torcer, mas não se tem a dimensão de um sabor real. Permitimo-nos dividir o encontro da obra, embora percamos o verdadeiro sentido do prazer da realização. Andar pelos outros é como escolher um presente. Abrimos um mundo que, no final, tem que ser comprimido em apenas um objeto. Current Mood:
Current Music: 'Hush little baby' (trad.) c/Bobby McFerrin e Yo-Yo Ma
2nd January 2006
: Com o albatroz
Ainda deve haver no portal da Arte Pau Brasil um cartão com texto de Mário de Andrade que dizia preferir as quartas-feiras às grandes datas. Pois é nesse ritmo de dia comum, sem motivos ou finalidades que encontro o poema de Coleridge: ‘A balada do velho marinheiro’ (‘The rime of the ancient mariner’), em bela publicação da Ateliê Editorial. A história que ele conta é simples, a viagem pelos mares sempre incerta, ao sabor de bem-aventurança e infortúnios. E de gestos irrefletidos, soprados por um mal sem saber [como diz Cartola: ‘você desconhece consciência’]. O albatroz de bons augúrios é abatido pelo marinheiro. Segue toda a desgraça. Então, a penitência, a peregrinação pela palavra. E as conseqüências em quem o ouve. Nos dias comuns o extraordinário pode emergir de ações comezinhas. De ínfimos males plantados (e cultivados) quase sem querer, e que talvez prosperem pelo desejo de sair das repetições da jornada. Contar a história repetidas vezes parece ser mais do que uma purgação. É uma forma de aliviar a carga, descarregar momentaneamente o fardo (que voltará a pesar) e transferir ao outro uma parte do seu destino. Talvez por isso gostamos de conversar. Comprometemos o ingênuo com o sangue de nossas histórias e o infundimos com uma sabedoria de que não mais se livrará. Haverá ainda muitas quartas-feiras. Que elas sejam belas, comuns e conscientes. Current Mood:
Current Music: 'O sol nascerá' (Cartola-Elton Medeiros)
24th December 2005
: Estive no Conjunto Nacional e me lembrei de você
Foi assim, no final do ano, entre tantos ausentes e turbas de apressados carregando pacotes, quase perto da livraria Cultura, em pensamentos soltos quebrados, algum fim de tarde, cansado de todo o trabalho de meses, com sede e falto de sono que me deixei levar pelo barco da memória. Fiquei curioso para saber que outra exposição não estaria em cartaz naquela mesma galeria, porta automática, transparência de vidros, quase desértica, alguma perdida alma, estática ambulante surgiria. Em algum canto de estante cartões postais desta mesma São Paulo enevoada de cidade mundial levaria mensagens em seu verso, em nacos de prosa estandardizada. Olhei em volta, percorri derivas circulares, girei intermináveis vezes sem nem ao menos me perguntar para que, por que. Foi como um vento. Foi. Current Mood:
Current Music: 'Demais'('Yes, it is') (MCartney-Lennon::Z.Rodrix-M.Paiva)
15th December 2005
: ao som de velas
Nenhum enfeite parece comover os passantes. Seus olhares procuram as ofertas cabíveis. Que dizer então dos acordes daquela pequena orquestra? Se forem ouvidos, talvez sejam tragados como trilha sonora. Muitas luzes contínuas, piscantes. Corais a mais. E uma estranha sensação de que todos caminham esperando ganhar seu Oscar. Através das grandes avenidas rodam cenas de filmes estrangeiros. Mas com uma linguagem sem legenda ou história linear. Tente atravessar alguma delas nessa época. Faz algum frio no fim de primavera. Não há nada o que buscar. Current Mood:
Current Music: 'Sacrifice' (Lisa Gerrard - Pieter Bourke)
4th December 2005
: Portões de embarque
Aeroporto internacional de São Paulo-Guarulhos. Pela primeira vez a pista em frente não me dá lições de partir. Enquanto percorro os longos e largos corredores, reflito sobre o que poderia ter substituído essa fantasia antes recorrente. Teria sido talvez a mudança de tônica nos últimos cinco anos. Ao invés da saída, a viagem interior; do diferente, o conhecido; da paisagem, o vazio. Adivinho a turbulência entre os que vão. Tudo ainda é muito cedo e as malas já estão despachadas. Cartões de embarque, casacos para o frio intenso, bagagem de mão. Repasso algumas frases que poderiam ser úteis no destino. Eles titubeiam no espanhol, derrapam no francês e definitivamente se desleixam no inglês. Nada parece ser empecilho para os que rumam para descobertas. Agora falta pouco. E um pouco da atmosfera dos filmes parece soprar na hora das despedidas. Sem a dramaticidade e o suspense de Casablanca. Aqui não há escolhas para fazer. Não há quase frases. Eles partem com a segurança de encontrar. Current Mood:
Current Music: 'As time goes by' (H. Hupfeld)
27th November 2005
: =
Um dos aprendizados mais extraordinários do Tao é que a simples visualização concentrada pode produzir a mesma eficácia do movimento. Não é mera sugestão. Ao perfazer mentalmente o percurso da energia, faço com que ela circule. Essa capacidade tem paralelos na força mobilizadora das palavras. Quando se diz ‘sucesso!’, não se está apenas expressando um desejo de bem aventurança (para os outros ou para si mesmo). De alguma forma, também se provocam modificações que favorecem o andamento das coisas: maior auto-confiança para seguir, companhia na hora de escolher o rumo em bifurcações, clareza nos trechos de sombra. Não há nada de magia nessa história. Porque não se trata de agir a distância. Ainda que palavras possam ser pontes, aqui elas funcionam mais como lembretes, faróis: condensam as atenções, concentram. Ajudam a diluir a névoa. E também não há propriamente uma distância a ser vencida se partilharmos a visão da unicidade. Como partes de um todo, diferentes manifestações de uma mesma consciência, falar para um outro é apenas lembrar de si mesmo. Current Mood:
Current Music: 'Maybe this time' (F.Ebb-J.Kander)
21st November 2005
: Equivalências
Chuvas são quitações de dívidas. Vezes fortes, outras renitentes, mais contagiosas que lixo destampado. Dizem como podem quedar quietas em fins de semana em que mais de dez mil pares de tênis passeiam, apedrejam seu desgosto. São débitos pedestres, automáticos nem cenas dominicanas garantes de mais dias. Águas. Estapeiam como raivosos sem calhas. Depois riem mainstream, pois é. Pelo raso continuam mais fácil. E ainda sem pêlos. Áridas. Agora escute mais baixo. Nem tente tampões. Hoje não dá mais. Current Mood:
Current Music: 'As peles' (Thomas Pappon-Cadão Volpato)
13th November 2005
: Um ano depois
Quando esta página completa seu primeiro aniversário, celebra um de seus valores essenciais: mais do que tudo, a escrita. Porque o autor confere importância crucial ao texto, em um mundo cada vez mais corrompido pela vertigem das imagens. Em um curso de que participei, um dos exercícios propostos era compor um poema de no mínimo quatro páginas com o seguinte repto inicial: ‘escrever é combinar palavras’. Do que escrevi, relembro algumas passagens: ‘Escrever é combinar palavras, Pontes, ruas, caminhos Cedo, frases em linhas retas Tarde, sinuosos garranchos Nas horas pares, espalhar Nas ímpares, limar Cedo, termos de chegada Tarde, páginas para partir Escrever é cutucar sintomas Colocar curativos Rasgar em pedacinhos E depois reciclar Escrever é fazer escambo Descambar para soluções de bolso Avulsas para uso vago Trilhar pelas técnicas Teclar tresloucado [...] Escrever é escalar Andar por esteira Estender pontes entre abismos Entre esquecidos e estranhos. Escondidos e emergentes Egressos e extraviados Pontes sem guarda-corpo Escrever é convidar para o caos Mergulhos sem retornos Escrever é despencar Cair em tentação E continuar a cair Escrever é tensionar as linhas E andar sobre elas Jogar xadrez sem oponente Opor-se ao jogo, faltar Na falta querer mais A mais das sobras, cair Da queda de outra ponte Cedo, pastilhas edulcoradas Noite, comprimidos tarja preta Nas horas pares, chá com torradas Nas ímpares, shake dietético Escrever é ladrilhar papéis Em cerâmica fria Das melhores vinganças É conduzir palavras sem Saber para onde Escrever é deixar escuro O que antes brilhava por si Sem história Sem razão Escrever é estender tapetes Cedo, como os do leste Tarde, como os da fábrica Nas horas pares, descansar Nas ímpares, meditar Escrever é assim Combinar o que não se mistura Alfabetizar o sentimento Dar-lhe a mesma estatura Dos conceitos Enfim Estar cedo, nas horas pares E tarde, nas ímpares Ou vice-versa Sobre as pontes, qualquer hora Para atravessar Para atravessar’ Current Mood:
Current Music: 'Quando o sol bater na janela do teu quarto' (R.Russo)
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